quinta-feira, 16 de junho de 2011

Páginas Finais

Uma idéia é como um vírus: resistente, altamente contagioso. A menor semente de uma idéia pode crescer, pode crescer para definir ou destruir você. Idéias como "seu mundo não é real""""''", podem mudar tudo. Frase do filme A Origem.

O Principio
O coração parou de bater e ainda assim ela conseguia ver a entrada para a segunda fase. Antes disso replicaram-na através da combinação simples de três teclas inventadas pelos seus ancestrais: Ctrl+C e Ctrl+V.
O Despertar
Cortou o braço e ficou a fitar sua vida saindo em forma de vermelho – a dor era pura ilusão, o que sentia era êxtase, encanto e uma vontade indescritível de gritar aos grandes olhos invisíveis: “Eu sei que isso não sou eu”.
A Fuga
Escapou, saiu com a sutileza de um gato da grande sala de controle. Agora estava livre de todas as leis da física que a regiam, estava livre de todas as barreiras do mundo concreto. Liberdade – escreveu no ar – era a capacidade de caminhar sem chão.

terça-feira, 31 de maio de 2011

Conselho de um Corvo.


Devemos não somente nos defender, 
mas também nos afirmar, 
e nos afirmar não somente enquanto identidades, 
mas enquanto força criativa.
Michael Foucault






As setas levam-me para o limite – quando tudo o que quero é acertar a rota da carniça.  Vaguei durante anos por essa fortaleza de concreto e tenho absoluta certeza que veremos o grande avião alçar vôo. Você percebeu o sinal que carrego nas costas? Você reparou na minha face retrô? Eu nasci bem antes de enterrarem candangos embaixo dessa Legolândia. Hoje vejo vocês organizando passeatas em nome de qualquer orgulho – enquanto isso a sua espécie definha ao lado. Eu teria morrido por vocês, mas hoje sinto um verdadeiro nojo do caminho que seguiram. Eu desejo que o Criador faça sua espécie evaporar desse planeta.





Protesto do PETA - Barcelona



Pessoas estranhas gritam no meio da rua;
Pessoas estranhas andam com os pés no chão;
Pessoas estranhas escrevem sobre pessoas estranhas.
Pessoas estranhas não são "buchas de canhão".




Eu sei que você sonha com um mundo melhor.
Mas o mundo não pode ser melhor do que seus habitantes.
Vocês erraram com mérito e amanhã comemoraremos o fim com taças transbordando cinzas.
Veja a criança que acaba de nascer: só mais uma mão para as linhas de produção. 


Protesto contra filtro da Internet - Austrália



Pessoas estranhas lutam por causas obscuras;

Pessoas estranhas adoram reclamar;

Pessoas estranhas caminham nuas;

Pessoas estranhas só pensam em reivindicar.


Vocês não seguiram o conselho das borboletas.

Vocês não acreditaram nos prognósticos ambientalistas.

Vocês não buscaram os sinais naturais.

Lamentavelmente o câncer tecnológico é o futuro de vocês.


 Protesto contra Transgênicos - Brasil


Pessoas estranhas caminham sozinhas por metas coletivas.
Pessoas estranhas não se conformam com o jornal do meio-dia.
Pessoas estranhas lutam pelo mundo por meios informais.
Pessoas estranhas nunca enfeitarão as chamadas dos jornais.




terça-feira, 17 de maio de 2011

Viagem Cósmica





Por sua própria natureza, cada espírito,
em sua prisão corpórea,
está condenado a sofrer e gozar em solidão.  –
Trecho do livro As Portas da Percepção, de Aldous Huxley.







É preciso libertar a mente das ferramentas atrofiantes e do egoísmo humano.
É preciso abrir a porta certa e saber flutuar no reino do infinito.
É preciso sentir as cores e atravessar as fronteiras que barram nossa evolução.
É preciso navegar sem porto, voar inertemente e compreender a magia das estações.
É preciso ouvir os anciões e seguir conselhos de  crianças.
É preciso dançar com os cordeiros e dormir com as serpentes.
É preciso beijar a face do planeta e só abandoná-lo pelo universo.
É preciso nascer em várias versões e optar pelo inverso.
É preciso galgar as montanhas e se atirar.                       


A serpente apareceu e conduziu-me ao seu jardim
O caminho era reto e prazeroso
Ao chegar eu já era outra além de mim
Sentia a volúpia das borboletas.

A água daquele lugar abraçava-me e cortava-me em três.
Agora eu podia voltar às montanhas e compreender a arte final do arquiteto.




Nada é preciso.  




sábado, 19 de março de 2011

Um Ensaio para Thoreau - Parte II






"Os homens tanto conquistaram;
               Vejam! Até asas tomaram -

            Artes, ciências,

             mil exigências.

               E apenas do sopro do vento

               o corpo tem conhecimento."

Walden ou a Vida nos Bosques - Thoreau



Nunca contemplei tanto a natureza quanto agora, nunca amei tanto o canto repetitivo de um pássaro quanto hoje. O amor é um sentimento ilimitado e nunca tínhamos sido apresentados de fato.  Sempre fui um homem extremamente apaixonado, mas nunca me dei o trabalho de experimentar o amor. Minhas paixões morriam dentro de sonhos, ideologias, metas, desejos e proximidades. Percebo a sensação de amar quando olho para o céu e vejo a imensidão azul cair sobre mim, pois é naquele instante que tenho a certeza que somos um, mas não somos a mesma coisa e não ser a mesma coisa livra-me da forma. Eu amo tudo sem a condicionalidade de uma troca igual ou de qualquer troca. Posso afirmar que amo tudo aquilo que não sou, todo assombro, toda natureza desigual. Amar o próximo é tarefa fácil, difícil é ter amor universal. 

Quando eu morrer serei engolido pela terra, nos tocaremos, nos trocaremos e no final seremos outro além de homem e terra. 

Se a sorte contemplar minha nova vida, serei formiga, serei formigas e sentirei a Terra em várias versões – serei diverso, serei um verso natural. 

Gosto deste faz de conta de ser outro, pois assim consigo treinar meu sentimento universal – amar o que está além da realidade e ser capaz de amar o que de fato está distante: um pai hoje chora no Japão, gostaria muito de conseguir amá-lo, pois quem ama o Tsunami é Thoreau (meu amigo de cela).


domingo, 20 de fevereiro de 2011

Um Ensaio para Thoreau - Parte I




A longo prazo os homens acertam apenas para aquilo que apontam.
Por isso, embora falhem imediatamente,
 seria melhor que apontassem para algo mais alto.

Existe um pacto secreto entre as formigas, poderia ser dito que as tais criaturinhas são as responsáveis pelo equilíbrio natural da Terra – caminham entre fileiras, respeitando o espaço vazado ao lado, cada uma com um fardo diferente: tamanho, peso, cor, espessura.  

Gosto de observar como se encontram, como se comunicam e com elas aprendo muito sobre o sentido de organização social e disciplina. As vezes, quando mandam-me para o banho de sol semanal, trago comigo uma folha e um lápis para mapear o caminho das pequeninas. 

Um amigo de cela uma vez disse que meus desenhos eram pura arte naturalista, eu nunca entendi muito bem sobre movimentos artísticos e até aquele dia naturalismo conotava a idéia de pessoas nuas e livres. As formigas são nuas e livres e caminham soltas em um mesmo traço, mas nem de longe parecem manter aquela ordem sobre imposições. A natureza de cada uma delega suas funções e ir contra a própria natureza só cabe ao comportamento humano – as formigas confiam no instinto natural. Deve ser por isso que meu colega considera meus desenhos naturalistas. Natural deveria ser sinônimo de verdadeiro, autêntico, aquilo que de fato é desde o seu nascimento.  A prisão não é natural e nem minhas antigas transgressões.

Aqui dentro o tempo não passa devagar, a verdade é que o tempo nunca passa: sentimos o mesmo cheiro diário, o tempero da comida não muda, os dias são sempre iguais. Mas apesar disso minha face sempre ganha um novo traço e teimo em acreditar que um dia qualquer as formigas caminharão sobre ela. Serei o chão que segura o trotar das formigas e juntos carregaremos o mundo, as folhas e os voyeurs de um espetáculo natural.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Resiliência



Vejo o tempo passar por minha pele e tocá-la com o afago da transformação. Sou aquela rocha lapidada pelas ferramentas da natureza - as vezes fico torta, as vezes firme, as vezes despedaço-me e atinjo tudo ao redor.

Vejo códigos indecifráveis no ar, vejo nuvens acompanhando meus pensamentos, vejo veias abertas alimentando o solo de vitalidade.

Vejo o nascimento de idéias decadentes, vejo brotos surgindo do coito infértil, vejo pessoas sem rumo caminhando para o lado certo. E vejo a cada dia os meus conceitos sendo partidos ao meio ou estraçalhados por inteiro.

Nada é e nem dura para sempre, ensinou-me aquela tempestade.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

...




Há poucas horas ouvia o barulho da rodinha.

Ele se foi – a roda gira sozinha.

O vazio e a incapacidade de compreensão.

Eu não sei dizer adeus – digo “vá!”, mas é em vão.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Efeito Colateral







"Nesta cidade do Rio,
de dois milhões de habitantes,
estou sozinho no quarto,
estou sozinho na América."

A Bruxa - Carlos Drummond de Andrade



– Eu precisava daquele tempo, senti que se não fosse assim perderia totalmente o equilíbrio.
– Às vezes é melhor parar e esquecer o mundo ao redor. Precisamos limpar a casa, meu amigo!
– Foi isso! "Minha casa” estava uma bagunça, tudo espalhado sem lugar certo. Deixava tudo entrar sem ao menos saber se havia espaço para tanta quantidade. Chegou ao ponto que comecei a ter vazamentos.
– É a loucura coletiva de nosso tempo. Você foi apenas mais um dentre tantos que caem todos os dias na rede das atenções quantitativas.
– Eu queria mais coisas, mais pessoas, mais encontros, mais informações, mais novidades e demorou para eu perceber que tudo o que vinha se desintegrava muito rápido. Isso foi me dando uma sensação esquisita de engano, de loucura, de ilusão. Compreende?
– Acho que sim. Mas e agora, como você está lidando com a mudança que teve?
– Não posso dizer que estou totalmente curado. Nem sei se existe a cura para isso, mas estou menos insatisfeito e o pouco que hoje convive comigo parece ser menos artificial. É como se eu encarasse a vida como uma viagem eterna e nela só levasse de companhia o indispensável.
– Uma ótima forma de encará-la!
– É sim, obrigado! Mas estou aqui entregando minha existência para você e nem sei o seu nome.
– É assim que funciona esse programa: nós ligamos para cá, nos escutamos, não nos identificamos e falamos sobre nossas vidas.
– E você fala de onde? Posso saber?
– Falo do meu trabalho e você?
– Estou na estrada, vi esse número no outdoor com o anúncio “Disque amizade” e decidi parar o carro e ligar. 
– Legal! Eu sempre ligo quando estou mal aqui. Sou vigilante, trabalho das dezenove até as seis da manhã e atualmente está impossível conviver com amigos por conta do meu horário.
– Eu só liguei porque tem dias que não falo com alguém e não posso entrar em contato com nada que deixei pela estrada.
– Compreendo.
– E agora?
– E agora o quê?
– Acho que estragamos a idéia do programa é melhor eu continuar minha viagem.
– Faz assim, desliga e liga novamente que com toda a certeza vai ter outra pessoa na linha esperando um amigo para conversar.
– Certo. Mas você vai ficar bem?
– Sempre fico! Não tenho para onde ir, ou fico bem ou sou demitido por negligência na vigilância.
– Então até mais e bom trabalho!
– Boa viagem, meu amigo!

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Ao Som da Revolução





Eu — incinerador,
eu — sanitarista,
a revolução
me convoca e me alista.
Troco pelo "front"
a horticultura airosa
da poesia —
fêmea caprichosa.
Dialética, não aprendemos com Hegel.
 Invadiu-nos os versos
Ao fragor das batalhas,
Quando,
sob o nosso projétil,
debandava o burguês
que antes nos debandara.

A plenos pulmões -Vladímir Maiakóvski  (1915)



Adoro ouvir os tiros que vêm lá da rua,
pois tenho a sensação que alguém é perseguido.

Alguém, lá fora, necessita urgentemente de matar
e outro alguém necessita, mais ainda, de uma saída para continuar vivendo.

Eu só necessito ouvir os barulhos produzidos pelo tiroteio.

Alguém grita: Revolução!

Não ouço mais nada, acho que todos estão mortos.

Conservadores mortos em nome de suas grades.
Revolucionários mortos em nome da liberdade.

Não sei qual morreu pela causa mais nobre.

Só sei que os conservadores tencionavam parar com os tiros,
já os revolucionários queriam barulho.
Sei também que eu (aqui dentro) admirava os revolucionários,
pois estes sempre atiravam mais.

E eu adoro ouvir os tiros que vêm lá da rua.