sábado, 5 de dezembro de 2015

Canteiro de Pragas


Fotografia | Tomohisa Tobitsuka


Eu não poderia imaginar
naufrágios, tumores, o pai defunto,
a maternidade estacionada
e a secreta decepção de não ter sido.

Eu não poderia imaginar
fantasmas povoando
                  meus sonhos,
                  meus medos genéticos,
                  meus dedos miúdos,
                  minha rara sobriedade,
                  minha perturbação congênita
                  e os braços breves demais
                  para abraçarem o mundo.

Eu não poderia imaginar
cavalos pastando livres
em um pátio de concreto
e a mulher morta embalada
pelo último fio de esperança no Eixão.

Eu não poderia imaginar
em uma segunda-feira
a peculiar notícia sobre o amigo
que desapareceu por completo
depois de assistir o último pôr do sol
                                    [no paralelo 15.

Eu não poderia imaginar
a vida em rifas, o pó alcaloide,
os dentes caídos, a cicatriz no torso,
os cistos hemorrágicos e a conjunção
de cabeças vazias batendo à porta.

Eu não poderia imaginar
tua boca todos os dias,
teu cheiro todas as noites,
duas flores se erguendo
em um canteiro de pragas.

 Eu não poderia sequer imaginar
nossa biografia vingando em um
diário mofado, coberto por fungos
e narrativas sobre remédios, pontos
na carne e um estrangeiro título na capa: Pest Garden




sábado, 14 de novembro de 2015

Chuva de Aqueronte






“Aquele rio jamais se abre aos peixes.”
João Cabral de Melo Neto


DESCERAM
 do   C É U,
fluíram pelo concreto,
 atacaram as maiores torres,
 beijaram as estruturas dos prédios,
submergiram os carros,
 desidrataram o mato,  
picharam as árvores,
 sugaram os peixes,
desmaterializaram os bravos,
 endureceram o coração das crianças,
 uniformizaram os imaturos e sangraram o peito das fêmeas.

Indaguei sobre suas identidades e eles
se admiraram – exibiram placas (suas credenciais) e
depois cursaram o meu corpo com lâminas afiadas.

Zombaram
como
hienas,
treparam
como cavalos,
ruminaram
feito Molochs e
disseram que eram demônios brotados da alma humana.

E eu que não possuo alma (tão raro saudade)
fechei os olhos, respirei três vezes até que o cheiro
do último Diabo fosse embora e arrastasse consigo todo sinal de morte.

E eles cantavam:
¯¯Lá fora nada sobrou – nem homem, nem mulher e nem bicho sagrado. ¯¯

Lembro como se fosse hoje da primeira chuva de 2050: “Chuva de Aqueronte” cobriu as cidades com um véu de morte, emudeceu o canto, infiltrou no solo, contaminou o magma e o que era para ser benção volveu-se em passagem para o meu barco sobrecarregado de mortos.


Chuva de cinzas,
chuva estéril,
chuva da desmaterialização,
chuva do infortúnio.


Meu nome é Deserto e nós somos muitos.





terça-feira, 20 de outubro de 2015

Resenha e Entrevista | para o Jornal de Literatura e Arte "O Equador das Coisas"





Não é de hoje que sou fraternalmente abraçada pela equipe de "O Equador das Coisas" (Carol Piva e Germano Xavier) . Participei de duas edições desse jornal impresso de literatura  e depois de lançar meu livro "Arame Farpado" fui felicitada com uma resenha seguida de uma entrevista. Para quem se interessar é só dar um clique AQUI




(...)

A mineira, radicada na capital federal há mais de uma década, estabelece em seu cortante ARAME FARPADO, um diálogo íntimo-comum de base existencial onde algumas das expressões mais pontuais parecem partir do seguinte questionamento: como manter-se vivo diante de tão imantada sociedade, de base distópica e essencialmente opressora?

A poetisa traça um percurso elucidativo – poesia elucida? – formatado em seis partes díspares, mas que se colidem fortemente em termos de conjunção temática, tratando de entrelaçar discussões acerca da formação do eu (ou dos eus, eus-nossos), de suas vivências afetivas, das experimentações mundanas e, por fim, das intermináveis conclusões destinadas ao império da palavra...


Germano Xavier








Entrevista | Clube da Leitura sobre "Arame Farpado"

com Marcos Nascimento (editor da Lug) e Maurício Gouveia (proprietário da Baratos da Ribeiro)



Dia 29 de setembro (durante minha estadia no Rio de Janeiro) fui conhecer o Clube da Leitura que fica na linda livraria e sebo Baratos da Ribeiro em Botafogo. No dia falei um pouco sobre o meu livro de poesia Arame Farpado, sorteei dois exemplares do livro, conheci pessoalmente o Daniel Ribas e o Guilherme Preger (que já eram amigos), tive a oportunidade de assistir a dinâmica do clube e depois disso tudo rolou uma entrevista feita pelo querido Daniel Ribas.












Segue um trecho da entrevista:

(...)



As minorias são tema de diversos poemas. Isto foi intencional ou algo que surgiu na composição da obra?

Todos os poemas são intencionais. E falar de minorias não é só falar do gay, do índio, do negro, da mulher, mas antes de tudo é falar do meu território. O Brasil viveu e ainda vive em uma situação de subordinação socioeconômica, política e cultural. 

Leia a entrevista completa aqui 





Lançamento | Arame Farpado na Lapa (RJ) - 17 de Setembro




O evento aconteceu dia 17/09  no Bar das Quengas, Lapa, no Rio de Janeiro.

Rolou uma mostra de vídeos poemas e booktrailer e para finalizar uma leitura de poemas do livro.











quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Entrevista | Letras et Cetera

Dia 26 de Agosto o escritor e colunista da Revista "Letras et Cetera" Fernando Rocha fez uma entrevista comigo. Falamos sobre o meu livro de poesia "Arame Farpado" e sobre processo criativo, sobre o Brasil e sobre Ecos.  Quem quiser conferir o que rolou é só dar um clique:




domingo, 16 de agosto de 2015

Pré-lançamento de "Arame Farpado" | Funarte

Dia 14/08 pré lançando "Arame Farpado" no Sarau da Casa Frida - Teatro Plínio Marcos (Funarte). 



Booktrailer | poesia "Arame Farpado" de Lisa Alves








"Lisa Alves compõe um livro de poemas dividido em seis partes: Do eu, Dos territórios, Da dominação, Da vindicta, Das contradições e Da poesia. Essas partes formam uma espécie de tratado sobre a nudez e o cárcere do homem de todos os tempos, assim como um estudo detalhado da matéria inorgânica que rodeia esse ser tão próximo à aberração. Nada foge ao olhar arguto e ácido dessa grande escritora. Não encontramos um livro propício para uma tarde de domingo, seus textos têm a densidade e o peso das madrugadas insones."  


"A poesia de Lisa é um modo de questionar nossa identidade. Que é ser brasileiro? Como se forma uma individualidade num país pobre e preconceituoso? Como podemos ser com o outro? Não com os donos do poder e do capital, mas com “os do final da fila”? Devir é sempre minoritário e optar pelo menor é uma opção política, não partidária, mas política."

"Que estranha forma de ficcionalidade é esta, que se reconhece como profundamente real? Na fabricação de seu próprio corpo entre farpas e registros de mãos que nascem do meio de águas? Talvez tudo seja fragmentação nestes tempos. E é no deserto dessa narrativa íntima, afeita à matéria das "repetições, ponteiro do relógio [...]", porque "a repetição é uma experiência absoluta", que está a poesia de Lisa, como um corpo de memórias anônimas ou uma esfinge especular."





segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Lançamento de "Arame Farpado" | 15 de Agosto




Dia 15 de Agosto (sábado) às 16 horas, lançarei virtualmente pelo Facebook "Arame Farpado" meu primeiro livro de poemas. Ficarei honrada com a presença virtual de todos.  Em setembro estarei no Rio (ainda sem data certa para lançar) e depois São Paulo. 

Link do evento: www.facebook.com/events/1615083992099769/
Link da resenha do livro escrita pelo autor Daniel Lopes: pianistaboxeador21.blogspot.com.br/2015/08/as-trincheiras-de-uma-poeta.html

A arte da capa foi elaborada pela minha musa Juliana Botão, a orelha escrita pela grande escritora Marcia Barbieri. A obra teve apoio editorial da NYX Poética (RJ) de Marcos Nascimento e do Coletivo Púcaro (SP, DF e RJ).





Nota pós lançamento virtual:

 O lançamento virtual foi bem legal e interativo. E quem não estava online na hora e quiser conferir o que rolou o evento ficará disponível. Teve um vídeo que postei falando sobre a publicação, entrevista (com Fernando Rocha), poema musicado (com Fabio Mungo), vídeo do pré-lançamento que rolou dia 14 na Funarte, booktrailer, poesia comentada (com Mar Becker), resenha (com Daniel Lopes) e a apresentação feita por Marcia Barbieri.

Emoticon smile




quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Lançamento da Antologia Poética 29 de Abril | O Verso da Violência

Ontem, dia 04 de Agosto, aconteceu o lançamento pelo facebook da Antologia Poética 29 de Abril: o Verso da Violência (Patuá, 200 págs., R$ 15)O livro foi organizado pelos escritores Domenico A. Coiro, Mar Becker, Priscila Merizzio e Silvana Guimarães e conta com um grupo de 80 poetas. Tive a honra de participar com um poema: "O mais cruel dos meses". A antologia possui 200 págs. e será vendida por 15 reais. 

Capa: Bruno Palma e Silva e Silvana Guimarães
Imagem da capa: Brunno Covello


domingo, 19 de julho de 2015

Lançamento da AQUAFÚRIA: uma antologia de poetas sedentos

"Quanto vale a água? Quanto vale a vida?" - questionamentos lúcidos feitos por Carlos Eduardo Carneiro na apresentação dessa antologia organizada por Thiago Cervan
Contribuo com um poema sobre a crise hídrica conjuntamente com vários "poetas sedentos" do Brasil. É de graça: só baixar, ler e compartilhar. Emoticon wink

Organização: Thiago Cervan
Foto da capa: Laura Aidar
Apresentação: Carlos Eduardo Carneiro.

download free:




domingo, 12 de julho de 2015

Ode ao Rancor

Fanny Latour Lambert


"O que há de errado comigo
Não consigo encontrar abrigo
Meu país é campo inimigo
E você finge que vê, mas não vê"

A Fonte | Legião Urbana


Desintegram fotografias e células.
Os olhos se desmancham sobre a relva, 

as mãos se oxidam na dança do tempo,
o pai já não está e a mãe se prepara para
                                              [o beijo da Morte.

Você estuda sobre remédios
e sobre a decomposição da carne.
Vive o seu tempo e aprende
sobre antigos fantasmas e q
dentro da História familiar 
também existiram opressores.

Você sente a existência depois de terríveis dramas:
depois de sua avó perder cinco bebês e bem depois
de seu bisavô ter matado vinte índios e violentado a
honra de centenas de imigrantes.

Você existe entre bilhões e
tudo o q precisa saber é trocar
as fraldas de sua mãe, a utilidade
de cada medicamento, cicatrizar as
feridas e dizer dez vezes por dia
para sua velha: tudo vai dar certo.

Depois virá a poesia,
pois a poesia começa tarde, 
depois do crepúsculo,
depois dos velórios,
depois q as pernas falharem,
depois da pele se tornar um mapa do tempo – coberta de linhas e cicatrizes.

E se o amor começa tarde (como bem disse o poeta gauche),
o ódio acorda cedo – nas reminiscências da infância
                                                   quando a mão bruta e pesada
                                                   humilha a sua inocência para
                                                   q mais tarde só restem poemas rancorosos.








Lisa Alves (da série Necrológicos)




domingo, 3 de maio de 2015

Primavera Mortificada

Arquivo Pessoal





Qual face possuirei quando todos se forem?

Serei uma decomposição? 


Um broto de pragas no jardim?

Todas as noites descubro sua face em minhas quimeras,


todas as noites ainda a vejo cega, sem bússola, caçando minhas mãos


e rogas para que eu a conduza até a varanda para que assim consigas ouvir o mundo.


“Tia, uma mulher de manto escuro se aproxima!” 


(eu sei o seu nome, mas não quero assustá-la)


E assim você se vai: unida com a ancestral ideia que eu tinha da Primavera.



Setembro de 2011 | Lisa Alves

terça-feira, 14 de abril de 2015

autorretrato

Foto | Lisa Alves





Tenho feito acordos no escuro, 
acordos pós meia noite,
acordos pré sussurros 
 para não abrir os olhos dos que dormem,
                                             para não deter os sonhadores.
Anhangá caminha sobre as utopias.




(Da série Necrológicos | Lisa Alves)





Assistam | Utopia e Barbárie
Ouçam | O Canto do Pajé

sábado, 11 de abril de 2015

Primeira matéria sobre "Arame Farpado" na Reversa Magazine

A Reversa Magazine (uma revista com um espaço cultural na web voltado para noticiar o mundo gay feminino) publicou uma matéria linda sobre o meu primeiro livro de poemas "Arame Farpado" que será lançado ainda nesse semestre. Leiam a matéria aqui 





A arte da capa foi elaborada pela minha musa Juliana Botão, a orelha escrita pela grande escritora Marcia Barbieri. A obra teve apoio editorial da NYX Poética (RJ) de Marcos Nascimento e do Coletivo Púcaro (SP, DF e RJ).

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Pós Mutilationem ou Gaia Infecunda

ou letra para um punk rock






foto | Lisa Alves




Dores cavalares.
Ouço a cavalgada
de doenças incuráveis.
Genocidas!Genescidas!
Genocidas! Genescidas!
Genocidas! Genescidas!           

Cortam a carne, bebem o sangue, 
bailam com minhas vísceras, 
catalogam minhas genitais: hermes&afrodite.

Medem, pesam e biopsiam meu conteúdo:
orgânica,
atômica,
xxy
injustificável.

Genocidas!Genescidas!
Genocidas! Genescidas!
Genocidas! Genescidas!

Tumorizada e seca como o Saara,
carrego espíritos meninos batedores:
                                                  Mãe, deixem-nos entrar!

E eu mando todos se danarem
porque o meu corpo não é lugar para
gente pequena que vive reiniciando ciclos.

Genocidas!Genescidas!
Genocidas! Genescidas!
Genocidas! Genescidas! 








segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

le chant de la sirène morts

"O canto da Sereia Morta" ganhou uma versão em francês. Presente do amigo poeta e tradutor Ramon Lv Diaz :




et je étais de celles-ci, celles, dans tous les sens  
et qui recueillé heures juste pour le cristallisation
et pour éviter la vie
                              très délié, très unitaire, trés lumiére.

je venir l'autoroute,
je conçoive douceurs,
j'ai conçu des baisses
pour voir faire l'erreurs aux fantômes - éternité d'aller et venir
                                                   (autre troisième de newton).

j'ai embrassé hommes sans dents,
les hommes qui sucent la pierre
à cracher sur sa propre main pour se taire le satin.

j'ai embrassé l'femmes mortes,
femmes démembré, sans bras - sirènes de faubourg
(adroit de séduire la lune et mourir au soleil).

je étais un errant,
invraisemblances de chasse,
je suis l'expert dans déserts,
fabricant de mosaïque sans pièces.

je marchais parmi ceux tombés
et a appris à se déplacer rapidement au désespoir,
                                          pour l'cordeau détonant.

aujourd'hui, je ne parle pas plus de treize mots par jour,
superstitieux, priez passionnée, le sort
qui tisse la corde elle-même pour emballer
le cou après une misérable vie.