quarta-feira, 7 de março de 2012

A Prisioneira do Bosque


Salvador DaliAscensão de Cristo (1958)




Em um mundo onde pessoas matam e torturam em nome das cores e pigmentações esse universo seria um verdadeiro “tapa na cara da humanidade”. Mas a menina sabia que não era necessário chegar até aqui para constatar a necessidade desse tapa. A sua espécie há muito tem cometido atrocidades seguidas de justificativas insanas e infelizmente (para alguns) irreparáveis. Aquele mundo que aos poucos se solidificava possuía cores e tonalidades nunca descobertas e mentalizadas por ela. Naquelas cores, havia cheiro, êxtase e sensações que modificavam sua forma. Da cabeça aos pés ela se transformava naquilo que tolamente seria chamado de não-matéria.



Sua forma atravessava o concreto, a dor, as instituições, os ponteiros e o tempo. Conseguia ver o que a humanidade teria se tornado caso tivesse sempre optado pelo bom, pelo justo e pelo útil. 
O universo possuí uma finalidade de longo alcance, de eternidade e o sentido de “natureza humana” tornou-se um pretexto para todas as limitações e atitudes da espécie. Mudar, evoluir e expandir sempre foi o objetivo central da biota universal.  Não há natureza humana, há negação de evolução. – esclareceu Perséfone.



Toda mistura é benéfica para o alcance desse objetivo – flora, fauna, elementos, sistemas solares. O caos equilibra as forças e de alguma forma impede ascensões desiguais. Mesmo dentro da bagunça universal todas as coisas possuem “seu lugar ao sol”. E a revelação de Perséfone a fez compreender que o mundo de onde ela veio caminhava à moda do caranguejo, enquanto o universo se expandia, seu mundo se contraía buscando a forma fetal.




– Eu posso voltar a ser o que eu era?
– Sim, você aprendeu a fazer isso muito bem! Aliás, toda a sua espécie.
– Sim, “à moda do caranguejo”?
– Você tem medo do que se transformou?
– Eu tenho medo de não ter minha vida de volta. Todas essas novidades são surpreendentes, me fazem perceber a insignificância da luta diária, dos sobrenomes, dos status, do dinheiro, das coisas pelas quais a humanidade insiste em valorizar. Mas nada disso vai ter valor se eu não conseguir voltar e tentar explicar isso para eles.
– Se você voltar a ser o que era, jamais conseguirá explicar, minha menina!
– Então nunca mais verei os meus pais?
– Não foi isso o que eu disse.



sábado, 3 de março de 2012

Declaração pós metamorfose


                                                                                                            

                                                                                                              (para Oswald de Andrade)

Eu, nascida entre fezes e urinas, declaro para todos os fins que além de não acreditar na existência divina também passei a não crer mais na existência humana. Logo, percebo que também deixei de existir no exato momento que a descrença na minha espécie floresceu. Não abasteço mais minha alegria com a famosa esperança e tão pouco culpo os demais seres por esta tristeza que acredito sentir. Enterrei o romantismo junto com as catedrais espirituais e a música que ouço perdeu toda a sua melodia.

Eu, filha de uma experiência mal sucedida, declaro minha abnegação à matéria palpável e a tudo aquilo que provém do meu sexto sentido. Não pedirei misericórdia aos deuses e nem entenderei mais o mundo estudando as últimas descobertas científicas.

Eu, filha do capitalismo, declaro minha impotência econômica, fruto de uma escravidão disfarçada em um trabalho assalariado. Não sacrificarei mais meu tempo de sobre-vida dando lucro à Máquina-Mãe do Capital.

Eu, filha de uma terra explorada, declaro minha ignorância em relação às minhas raízes indígenas. Aprendi a sua gramática inglesa e desconheço o meu dialeto tupi-guarani.