sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

A Prisioneira do Bosque – As nuvens



Yo estaba bien por un tiempo,
Volviendo a sonreír.
Luego anoche te vi
Tu mano me tocó
Y el saludo de tu voz.
Y hablé muy bien de tu
Sin saber que he estado
Llorando

Llorando - Rebekah Del Rio






Sem chão para ser sustentada flutuou por cima de algo que ainda não conhecia. Um túnel a levava para vários lugares que ela não compreendia. Percebeu a variação das formas e que alguns sentidos eram despertados à medida que entrava em contato com as “anti-matérias”. 


“Sentidos anteriormente adormecidos pela barreira do carbono e pelas leis da gravidade” - explicou-lhe Perséfone.




Vejo o teu lado de dentro e de fora

Sei quando entra e quais são as possibilidades de saída

As portas são adaptadas a sua capacidade de expansão

Você e o universo dançam no mesmo ritmo.





Caiu em uma rua, o céu estava nublado, as nuvens tencionavam chorar e tudo ficou triste dentro daquele universo. Do outro lado viu uma criança chorando, de uma janela percebeu uma senhora cantando uma canção melancólica, o céu ficou roxo e suas mãos eram invadidas por galhos secos.  


 Já não sabia mais quem era, só sentia uma vontade imensa de chorar e lavar aquele universo que a cada instante entrava em profunda conexão com o seu ser.


E foi assim que ela choveu.





Lave a dor e a infertilidade da terra

Inunde a tristeza e deságüe para bem longe da criança e da anciã.







Cena do Filme "Cidade dos Sonhos"de David Lynch com Rebekah Del Rio

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

A Prisioneira do Bosque – Desintegração dos Quarks


Foto: Juliana Botão
Arte: Lisa Alves




“Respire, inspire o ar
Não tenha medo de se preocupar
Vá, mas não me deixe
Olhe em volta, escolha seu próprio chão
Por muito tempo você viverá e voará alto
(...)
Corra, corra, coelho, corra
Cave esse buraco, esqueça o sol
E quando finalmente o trabalho estiver terminado
Não vá se sentar, é hora de começar a cavar outro”

Breathe do álbum - Darkside Of The Moon – Pink Floyd







– E então, como é envelhecer? Consegue sentir a indelicadeza do tempo? 


– Eu não posso falar com você, estou em uma fase racional!


– A sua ingenuidade continua permanente.



As duas se entreolharam, uma estava diferente a outra permanecia da mesma forma. Trocaram sorrisos, embora aquela que um dia fora uma menina, tendia a desconfiar da realidade daquele momento. Passaram-se anos e desde o último contato com Perséfone nunca mais havia compartilhado o mesmo espaço com a deusa.



– Sua vida mudou muito?


– O suficiente para que eu exija que você saia pelo buraco que entrou.


– Você sabe que as coisas não funcionam assim. Só apareço quando a sua mente vibra em desconexão com isso que chamam de realidade.


– Sinceramente, está tudo tranqüilo por aqui! Minha existência não é mais uma busca interminável por vida.


– Estou preocupada! Naquele tempo, você assistiu duas versões de sua vida. Mas a transição entre os dois tempos foi deixada livre para você viver. Justamente a parte mais complicada, conflitante e decisiva.


– Olha só, está história de “Alice no País das Maravilhas” e depois “através do Espelho” já está bem batida, não acha? Eu não vou entrar nesse jogo novamente, não confio em você! Dá última vez, fiquei a ver navios interrompidos por uma tempestade de areia.


– Da última vez, você era um espírito apaixonado pelo novo. Mas agora, vai ser diferente. Prometo! Pense, bem! Você despertou Eros dentro de si e despertá-lo impede qualquer interrupção de sentimentos vazios. 


– Cale a boca! Você não existe!


– O que é real, querida? Pixels, quarks, vetores, lembranças? A sua carne que um dia virará pó? Esse satélite “natural ” que chamam de Lua e que provavelmente filma você, seu vizinho e sua tia?



Uma canção preencheu o quarto e desintegrou aquela que um dia fora uma menina:







O olho que vê quase nunca enxerga

Dentro da perna, poeira de eras

Dentro do coração, dentes de sabre



Dancem todos a dança das feras

Explodam e durmam na alquimia das armas

Leve a menina para o Bosque dos Mistérios



E desperte sua mente para uma nova jornada.







(continua em breve)






A Prisioneira do Bosque faz parte de uma saga psicódelica que escrevi em 2007. Publicava um capítulo por semana no Metamorfose de Monstros. Quem quiser conhecer a primeira fase dessa saga é só começar por esse link:  A Prisioneira do Bosque.




quinta-feira, 3 de novembro de 2011

O Dissolver da Primavera

Se você consegue ouvir este
sussurro você está morrendo"

The Great Gig in the Sky - Pink Floyd





Quando setembro chegou
recebi um grande buquê
de flores em extinção.
Medo do presente,
um pouco de deslumbre
e depois compaixão.

A principio imaginei honrarias,
privilegios e toda sorte de fantasias.
Mas quando setembro acabou
elas partiram, dissolveram-se
em um vaso antigo.

Agora só tenho uma dor calada,
um lamento triste que me segue pelas manhãs.


Η θεία μου

Desejo que você possa velejar nos mares mais calmos de todo o universo.
Desejo que você possa não apenas enxergar novamente as cores – mas também tocá-las e com o poder da sinestesia sentir o sabor do vermelho e do azul.
Desejo que você corra rumo ao infinito e nunca mais olhe para trás.
Desejo que você em algum minuto pare e possa contemplar a beleza do sol acariciando o mar.
E que possa sempre voar ao encontro do seu verdadeiro destino.


RUA TIA NICA 70 (escrito em 19 de novembro de 2007)

Na casa onde vivera por vinte anos, ela voltou
 (não para permanecer), mas para testificar suas raízes. 
Olhou os quadros, olhou para sua velha-guarda e sentiu um aperto no peito
                                          (não era um aperto de dor ruim e sim aquele aperto de ausência).
 Não tê-los ali, do seu lado, para trocarem olhares de vida
era tão ruim quanto ouvir gritos de socorro do lado de fora
e do lado de dentro não poder fazer nada. 
A avó com seu semblante confiante e elegância parecia dizer com seu tom imperativo:
“É isso mesmo, minha neta, continue indo! E jamais permaneça!”

Já o avô de olhos oceânicos, guarda-chuva na mão e paletó envelhecido,
não parecia dizer nada.  Em vida, foi um homem de poucas palavras,
 quando cogitava falar, optava pelo seu livro de anotações onde contabilizava perdas e ganhos da fazenda.

Os portais continuavam amarelos, a varanda
 e o banquinho também eram os mesmos,
 só ela que não se encaixava naquele livro de recordações.
Não era parte do Todo genealógico:
não estava nos santos expostos na parede,
não estava no jardim que outrora fora o mais florido de toda redondeza
e nem mesmo na garagem que servia para guardar a imaginação
de crianças “endiabradas”, como queixava-se Tia Deca.

Era incrível, mas a vizinhança era a mesma:
um monte de Donas Marias, Antônias, Comadres e Compadres.

Um verso passeou pela rua Tia Nica:

um verso imutável, digno de ser pintado,

um verso tão sólido que não se desmancharia no ar,
apenas voaria.

Entraria pelas portas, beijaria as comadres e saudaria os compadres.

E ela pôde ver a forma desse verso:
não era um soneto e muito menos um alexandrino.

Os parnasianos o invejariam e os pré/pós modernistas diriam:
Eta vida besta, me Deus!


sábado, 1 de outubro de 2011

Linhas de Expressão


Cena: Morangos Silvestres, de Ingmar Bergman (1957)



“Não é possível haver tempo caso
não exista a alma para enumerá-lo”
Aristóteles



Olhos Profundos, não chore! A vida é uma comédia mascarada de drama. A velhice veio e a atirou em uma piscina de remédios. O relógio está parado – é o medo do tempo, medo da gravidade, medo do fim. Estamos sem voz, estamos sem reação – não conseguimos aplaudir esse último discurso. Na infância exigia a eternidade de seus dias, mas agora a maturidade é uma assombração, uma esquizofrenia adquirida da incapacidade de compreender o ciclo natural da vida. Quero uma lembrança viva: conselhos perturbando-me a noite e sua voz alegrando meus dias. Mas você quer ir embora por fragmentos: um dia é sua sanidade, no outro mais um membro. Nenhum esforço pela vida, nenhuma rejeição do fim.
  
O oráculo engana-me com mapas que só levam-me ao isolamento e desse lado ouço sua voz fraca e velha contando-me sobre duelos com problemas fictícios. Quando eu era pequena sonhava com suas boas intenções, sonhava com seu apoio, sonhava com nossa família grande e unida pela obrigação de laços e hoje você é o meu pior pesadelo. O inimigo que a persegue também atingiu meus heróis – arrancou-lhes a voz, decepou-lhes as asas e fez dormir metade de um continente.

Às vezes pergunto-me se estou no chão ou no teto, às vezes me pego cantando sobre coisas que deveriam ser esquecidas e caladas. Tudo segue uma meta física e a falta de sentido termina quando vejo combinações numéricas tendo a capacidade de afastar quem amamos. O amor também é uma combinação numérica (uma reação química acidentada ou calculada).

Somos passageiros de uma cápsula perdida no tempo, estamos oscilando, estamos nos perdendo nessa ilusão de viagem linear. O tempo é incapaz de nos sustentar em um só ponto. Nossa embarcação não difere o ponto zero do infinito aberto. Pisamos em linhas imaginárias, andamos por elas e alguns de nós até santificaram esses traços. Mas não esqueça que as linhas que cortam o seu rosto também cortam o meu, cortam o do seu filho e cortam o Equador.

Ontem senti um vento frio e seco passear por minha janela, a primavera chegou com sabor de outono, as folhas velhas caíram no pátio e mais um dos nossos se foi. Para onde? As estações não respondem. Observo meus sentimentos e vejo que eles amadureceram, o medo do fim se foi e como você não posso lutar contra a expansão do universo.

No final a natureza se sobressaiu e a fé tornou-se um estimulo exclusivo dela – acreditar é uma forma de conexão com um lado camuflado pelas limitações dos sentidos. Há muita complexidade nos sistemas da natureza: as formigas possuem mais de um milhão de funções e continuamos usando as mãos apenas como ferramentas.

Olhos Profundos, não chore! A flor de ontem tornou-se o nosso hortelã, os ossos de nossos heróis infiltraram-se no magma e vez ou outra são jorrados para a superfície demonstrando o fervor de seus sentimentos. Ainda que a terra nos devore, seremos vermes, alimento e água. Mas nunca, nunca mesmo, deixaremos de ser alma  pois é a alma que move o motor do tempo.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

sábado, 3 de setembro de 2011

A Queda de Golias









 Que a terra gema em sua mole indolência:
"Não viole o verde das minhas primaveras!"
Mostrando os dentes, rirei ao sol com insolência:
"No asfalto liso hei de rolar as rimas veras!"

Não sei se é porque o céu é azul celeste
e a terra, amante, me estende as mãos ardentes
que eu faço versos alegres como marionetes
e afiados e precisos como palitar dentes!
Talento rebelde - Vladímir Maiakóvski





Coisa nenhuma pode contra a flor que brota no passeio público.
Nada é permitido contra o sorriso esboçado em plena fome.
Nada enlaça a beleza do vendedor de algodão doce no círculo de crianças acres.
Nenhum cansaço impede a partida de um homem com saudade.

Assim ela nasceu, assim ele sorriu, assim ele brilhou e assim ele partiu.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

A Ponte

 
Tela: Victor Cauduro


É escusado sonhar que se bebe;
quando a sede aperta, é preciso acordar para beber. 
Sigmund Freud



        Olhava as flores do quintal e sentia uma nostalgia atemporal, uma espécie de sentimento que habitava aquele quintal por séculos – sentimento que visitara um dia seus antepassados e naquele instante instalava-se nela de uma só vez. Olhou as horas e sabia que daqui alguns minutos teria que partir e partiria não só daquele lugar – partiria também seu espírito, seria dividida em várias, um membro para cada espaço geográfico. A mãe com lágrimas nos olhos a abraçou tão forte que naquele instante ela se confundiu e já não sabia mais quem era quem. O pai sentado no sofá, com semblante insatisfeito, não agiu, não falou, não abraçou – apenas pediu-lhe que telefonasse caso chovesse muito pela estrada, o que ela interpretou como: ”Caso aconteça algo ruim, volte!”

Acordou de um sonho de despedidas, o efeito do ácido lisérgico terminara. Tomou uma dose de água, riu e pensou: “Se eu não fosse órfã, teria sido uma bela despedida!”.