Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda. - Carlos Drummond de Andrade
Fizeram-te uma criança nessa altura dos anos.
Jogaram-te para a adoção de velhas quinquilharias.
Agora o que leva nessa bagagem antiga e cheia de traças? – o reconhecimento por ter sido tão passiva?
Teus filhos quebraram os pratos, maldisseram tua comida – trocaram-lhe por fast-foods e sucos gaseificados.
Teu marido sumido compartilha a velhice com qualquer uma que tenha menos linhas na face.
Lembra de quando batias no peito orgulhosa da postura dedicada? – mal sabia do buraco que um dia a jogariam.
Dona Neuza (a solteira), mal falada na vila, hoje canta pelo mundo e coleciona fotografias.
E a senhora onde andava, além das fronteiras da cozinha?
Mas agora é tarde e o caminho limitado. Ao redor somente muros e o rancor da ingratidão.
Nunca foste Pagu e nem Maria Bonita, então faça desde ódio somente uma lição: não existe liberdade encontrada
Desculpe-me pela realidade eu também senti a dor: fui largada pelos filhos e não tenho um vintém.








