sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Antiquário dos Ingratos


Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda. - Carlos Drummond de Andrade





Fizeram-te uma criança nessa altura dos anos.


Jogaram-te para a adoção de velhas quinquilharias.


Agora o que leva nessa bagagem antiga e cheia de traças? – o reconhecimento por ter sido tão passiva?


Teus filhos quebraram os pratos, maldisseram tua comida – trocaram-lhe por fast-foods e sucos gaseificados.


Teu marido sumido compartilha a velhice com qualquer uma que tenha menos linhas na face.


Lembra de quando batias no peito orgulhosa da postura dedicada? – mal sabia do buraco que um dia a jogariam.


Dona Neuza (a solteira), mal falada na vila, hoje canta pelo mundo e coleciona fotografias.


E a senhora onde andava, além das fronteiras da cozinha?


Mas agora é tarde e o caminho limitado. Ao redor somente muros e o rancor da ingratidão.


Nunca foste Pagu e nem Maria Bonita, então faça desde ódio somente uma lição: não existe liberdade encontrada em doutrinas. Você nunca foi costela, nem a sombra de alguém.


Desculpe-me pela realidade eu também senti a dor: fui largada pelos filhos e não tenho um vintém.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

O Canto da Etiópia


Um canto melancólico preenchia as ruas daquele dia.


Eu não acreditava em sereias tristes e nem em cigarras sopranos.


O canto não era tão desumano, era até similar demais.


Uma perda, um prato sem alimento, um lar sem teto – seriam palpites para aquela canção?


Não havia direção, a melancolia vinha do norte, embora parecesse vir do sul ou era do leste? – ninguém respondia.


Sei que a havia poder naquelas notas, sei que a tonalidade era embriagante e também sei da magia hipnótica da música. – o mundo saiu de suas casas, o mundo se descobriu definitivamente.


Bailamos ao som da dor e do pranto.


Homens, mulheres e crianças dançaram horas e horas seguidas e a dança não era bela e sim medonha.


O mundo foi decomposto pelo movimento.


Disseram que a civilização fora destruída por uma maldição infantil – uma criança prestes a morrer de fome e sede proferiu uma praga: Dancem, dancem, dancem!


Imagem e texto: Lisa Alves

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

A Nado

Para o solo não tenho mais pés de andarilho, apenas recordações.

Não há lua que eu não conheça e nem estrela chamada “aquela”.

Fui o mais fervoroso crente no amor: casei doze vezes.

Feio no nascimento e bem arranjado na juventude, agora sou apenas “Seu Tião”.

Escrevi muitos versos, nenhuma página publicada,

mas nas gavetas de minhas senhoras habitavam epopéias.

Lacei Maria no canto, Rosa ganhei na prosa e com Juliana foi amor.

Não fui dono daquela fábrica e nem da fazenda de gado, mas fui autor do meu caminho.

Cada traço do mundo, cada rabisco do infinito, um dia explorei.

Não me pergunte sobre a economia mundial,

pois a única bolsa de valores que conheci foi essa mala carregada de lembranças.

(o vestido de Janaina, o boné de Pedrinho e a pedra.)

Essa pulseira azul foi a condição de volta que Anna me deu.

Mas Tião não volta, Tião sempre segue para uma vida nova.

Até mesmo aqui, no lar dos que não podem caminhar

exploro cada ruga dos meus novos companheiros. ( Não há um mapa repetido )

E a geografia do mundo caí por terra quando descobrimos que cada pessoa é um novo lugar:

um velho carrega um mundo, uma mulher esconde sua realidade e o poeta reinventa o céu.

Por isso Tião nunca volta, o tempo não permite retornos.

Para quê ler o mesmo livro se o mundo é uma grande biblioteca?

Caminhei com as estações e quando minhas pernas falharam continuei o caminho a nado.

Sempre há uma forma de continuar...

Um coração que bateu doze vezes ainda pode desbravar o mar.


Imagem e texto: Lisa Alves

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Os Cegos do Castelo



Havia um deserto lá dentro
.
Dentro de onde?

Dentro dos olhos dela.

Nossa, que surreal!

Dizia que via pessoas saindo do solo.

Isso é espirituoso.

Não, era real! Ela estava na guerra.

O que ela fazia lá?

Era da cruz vermelha.

Também conheci pessoas que lutaram.

Ela ficava sentada olhando para a parede. Eu era muito menino, pensava que ela havia enlouquecido com a idade.

E você, iria para a guerra?

Não, jamais!

O que ela contava?

Ela narrava às imagens: desenhos vermelhos no chão, gritos silenciados e corpos rastejantes. Também havia um dragão de ferro que cospia fogo.

Interessante.

Eu sentia medo, parecia que a qualquer instante seus olhos projetariam todo aquele cenário para o meu tempo. Tentava evitá-la, mas a porta estava trancada.

Porque não gritava seus pais?

Eu não lembrava que os tinha.

Alguém de sua família já esteve na guerra?

Não sei, nunca tive interesse sobre o passado familiar.

Tem assistido filmes sobre o tema?

Também não.

É, meu amigo, deve ser algo espiritual. Algum sinal de tempos ruins.

Vou esquecer, foi só um pesadelo. Afinal, estamos em tempos de paz.



E lá fora o perfume da pólvora é exalado nas favelas do Rio de Janeiro.

Imagem e texto: Lisa Alves

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

A Metamorfose de H.C.


A louça suja e empilhada fazia aniversário de quinze dias. A cozinha exalava um odor de gordura e comida estragada. O quarto possuía uma nuvem cinza de fumaça produzida pelas centenas de cigarros fumados por H. C. A jovem estava em uma fase desligada. Desligara-se da vida, afundara-se em uma reclusão de si mesma. E isso exigia o esquecimento do Eu, para dar lugar ao vazio de ser apenas existência.Tudo o que via era ausência, a vida tornara-se negra.

Perambulava de um lado para outro, a espera de alguém que se foi e não tinha previsão de volta. Propusera-se a isso, sabia que a solidão viria desde o momento que decidira descumprir uma promessa e jogar fora a companhia de quem a amava de verdade. O apartamento era pequeno, mal cabiam dois colchões e um sofá velho doado pela vizinha do apartamento ao lado e isso impossibilitava de esquecer os momentos felizes passados em cada canto daquele lugar. A ultima briga foi capaz de destruir todas as suas razões e pedir desculpa para que o namorado retornasse parecia mais complicado do que se entregar a rotina anual de punição. A solução estava guardada na mesa ao lado: alguns sedativos, seringas e anestésicos ilícitos comprados na esquina com o fornecedor que lavava os carros semanalmente na quadra ou quem sabe mais alguns cortes para chamar a atenção. Sabia que todas as suas formas de auto-flagelo eram bem sucedidas, pois no final a morte não vinha e as bajulações entravam pela porta – aqueles com ligações consangüíneas sentiam remorso e passavam uma temporada tentando desculpar-se pelo abandono, mais tarde sabiam que o rapaz retornaria e cumpriria a missão de viver ao lado daquela menina de cortes superficiais vinda de um mundo onde jamais a família faria parte.

Mas naquele dia tudo foi diferente, ela clamou pela morte, perfurou seus pulsos, raspou todos os pêlos do corpo e ninguém bateu a porta. Parecia que naquele instante nem o namorado e muito menos seus familiares sentiriam sua falta. Olhou-se no espelho, estava deprimente, não se reconheceu e sabia que assim ninguém a reconheceria. Deitou-se nua no chão da sala, tocou-se para ter certeza que já não era mais a mesma e fechou os olhos. Precisava sentir-se, precisava perfurar-se, precisava encontrar H. C. dentro de si. O sangue tingia aos poucos todo o corpo e ela conseguia sentir o resto de sua existência indo embora. Não era dor o que sentia e sim uma fraqueza impossível de vencer. Ouviu alguém chamar seu nome, não era uma voz conhecida, abriu os olhos e percebeu que duas asas negras a encobriam. Foi colocada no sofá, o ser a sua frente disse-lhe que veio de longe apenas para visitá-la. Tiveram uma longa conversa e bem ali naquele sofá ela permaneceu.

Um dia o namorado voltou, abriu a porta do apartamento e notou os fios de cabelo por todo o local. Chamou por H. C. , mas ninguém respondeu. Explorou o pequeno local e nada da namorada. Foi quando notou um grande recado escrito com sangue na parede: A manequim ao lado foi o que restou de mim.

Imagem e texto: Lisa Alves

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

A Telespectadora


"A televisão é a primeira cultura verdadeiramente democrática
- a primeira cultura disponível para todos e totalmente governada pelo que as pessoas querem.
A coisa mais aterrorizante é o que as pessoas querem." (Clive Barnes)




Eu não acreditei nas manchas de sangue derramadas em Boyermoor e Dachau

Eu não acreditei na rosa exterminadora de Hiroshima

Eu não acreditei no espectro gigantesco dos opositores de Stalin

Eu não acreditei nos corpos que boiavam nas margens de Cuba

Eu não acreditei na fala branda dos humanistas

Eu não acreditei no câncer disseminado pelo fast food

Eu não acreditei na foice e muito menos nas reivindicações do MST

Eu não acreditei em reformas, sindicatos, ONGs e lutas pela igualdade.

Eu só acredito nos finais felizes das novelas. E a vida está ótima!

Imagem e texto: Lisa Alves

terça-feira, 13 de outubro de 2009

O Surto de Rita




Estava escuro e nem mesmo as luzes do lado de fora eram capazes de iluminar o grande apartamento situado em uma região selvagem de São Paulo. Macacos e cães atiravam para todo o lado, baratas se reuniam para escrever manifestos contra a ocupação marginal na rede esgoto. Corujas palestravam sobre os bens causados pela cannabis. E os gatos inauguravam o 13º. Deposito de objetos roubados.

Rita, ainda não era selvagem, embora fosse adepta de atos de consumismo sem controle. O apartamento era repleto de objetos sem um significado particular, na verdade os significados vinham dos comerciais, da propaganda boca a boca e isso fazia de Rita uma colecionadora de tudo aquilo que os outros já tinham ou desejavam possuir. Quando os animais civilizados reuniam-se ali, ficavam admirados com a quantidade de coisas sem sentido (todos desejavam experimentar um pouco): mp24, TV com controle mental, computador com download materializador e mais uma quantidade de inovações pertencentes a ratazana. Sim, Rita é de uma espécie de ratos doutrinados nos melhores laboratórios da Nova Ordem Animal. Ela como todos de sua espécie passaram por todos os testes impostos pela NOA e hoje solta no mundo aprendeu a criar sua própria gaiola decorada de acordo com as regras de seus adestradores.

Apesar da vida pacata de ratazana, Rita não estava bem. Na realidade já havia algum tempo que ela pressentia algo estranho em torno de sua existência. Não sentia compaixão pelos animais desfavorecidos, não sentia prazer ao ver os campos orvalhados, não compartilhava sua renda jogada fora nos bolsos do mercado e nem mesmo conseguia contar em suas malditas patas quantos amigos possuía (sobravam dedos). Anos e anos dizia bom dia apenas para a outra ratazana do telejornal da manhã, pois do outro lado da tela era impossível alguém proporcionar-lhe algum desconforto.

O gosto do vazio gerou um câncer tecnológico em Rita - e informação sobre a cura não estava a venda no mercado formal. Na internet, nada. Na TV, impossível. Nos Livros, já não existiam. Na farmácia, só com autorização da NOA. Na NOA, um encaminhamento para o laboratório:

“Consumidora impotente para o sistema, gentileza conduzi-la para o abate.”


Texto: Lisa Alves

terça-feira, 6 de outubro de 2009

O Compasso


Deus criou a Terra
na aula de geometria.




Com um compasso
desenhou uma esfera.




E com um escarro
jogou-lhe a vida.


Imagem e texto: Lisa Alves

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

A Morte de Carlos Drummond de Andrade



Acordar e ver o quarto tão cinza que mesmo ao abrir a janela nenhum efeito dos raios solares contribuem para diminuir o efeito do último incêndio.
Pela terceira vez ela ameaçara incendiar os livros. “Pobre tem que trabalhar!” “Essas escrituras envenenam seus pensamentos.” “Só os ricos podem se dar ao luxo de ler.” “A louça está suja.” “Nenhum homem vai querer casar com você.” Eu tinha pena dela, também tinha ódio, às vezes receio, às vezes respeito. Por fim não relutava, pedia licença à Drummond e saía às seis da manhã para procurar emprego. Trabalhei em linhas de produção, contaminei meu organismo com baterias de celulares e foi ali que constatei a poesia de Maiakovsky
: "Grita-se ao poeta: "Queria te ver numa fábrica! O que? Versos? Pura bobagem"."
Sentia o quanto eram falsas as palavras de minha mãe, pois nos livros existiam descrições perfeitas da vida lá fora, embora a vida lá fora não tivesse tempo suficiente para compreender os livros. A vida lá fora vendera seu tempo, minha mãe vendera sua vida e eu estava prestes a vender minha alma. Meu emprego era um lugar onde pessoas entravam e saiam a cada segundo, ninguém permanecia ali por muito tempo, o pagamento era bom, mas como não havia plano de saúde noventa por cento do salário entrava nos bolsos dos médicos. Um mês era o suficiente para um cidadão de bem suportar aquilo, eu fiquei ali por quatro anos. Nos intervalos (quando aconteciam) escrevia para os meus autores testemunhando a veracidade de seus escritos.

Querido Drummond, minha mão também está suja, não a escondo dentro dos meus bolsos, pois não posso contaminá-los de radiação.

Caríssima, Clarice! Escrevo-lhe com borrões vermelhos de sangue, minhas unhas não suportam os movimentos repetitivos, as baratas possuem uma vida melhor.

Sr. Gabriel Garcia, a solidão que acompanha essa gente durará centenas de milhares de anos. Leve-me para Macondo!

Quatro anos e nenhuma resposta. Na caixinha do correio apenas propagandas dos mercados e contas a pagar. A vida ficou mais difícil, eu estava completamente contaminada com as suas doutrinas. Não havia mais tempo para os livros, chegava cansada, ligava a TV e mastigava algum alimento fácil. Minha mãe já não era a mesma, até beijava meu rosto, arrumava meu quarto e limpava a pequena biblioteca. Os livros já não eram mais perigosos, tornaram-se enfeites na estante da sala. O vazio dentro de mim era descarado, gritava no meu espelho, tremia as paredes, perturbava os meus sonhos. Cheguei ao ponto de ter um verdadeiro nojo das palavras escritas, depois das palavras ditas e por fim fiquei muda. O trabalho tornou-se desinteressante, antes existiam intervalos, antes eu era a espiã de Clarice, Drummond e Garcia Marquês, mas agora minha missão tinha terminado. Assim que fui promovida pedi demissão, não queria mais fazer parte da história daqueles autores, esse mundo era feio demais, inútil demais, não havia sentido viver na descrição de uma vida tão penosa.
Voltei para casa e contei a boa nova para a família, chamaram-me de louca, minha mãe trancou os livros caso eu tivesse a intenção de voltar a lê-los. Ameaçou queimá-los (novamente tornaram-se perigosos). Disse a ela que não se preocupasse, eu não os queria mais, não tinha mais curiosidade de conhecer o mundo inventado por eles. Peguei um fósforo e queimei Drummond. "Morra com sua mesa, morra no meio do caminho, morra com as mãos sujas!" Drummond incendiou todo o resto. Clarice gritava em meus ouvidos: “Apagai, pois, minha flama, Deus, porque ela não me serve para viver os dias.” Eu não tive pena, o mundo precisava de novos autores, o mundo necessitava de uma nova visão.
E foi assim que deixei a espionagem para criar um mundo diferente. Hoje trancada no quarto cinza, decorado pela minha ira, escrevo a nova gênese. Lá fora o mundo adormeceu no fogo, eu sabia que tudo era uma grande ficção. Ainda não sei como tudo isso vai começar, só sei que a espécie humana foi extinta da história e uma nova espécie surgirá das cinzas.


Imagem e texto: Lisa Alves

sábado, 26 de setembro de 2009

O Pavor Fálico



Estagnado em frente a sua máquina de escrever as idéias não vinham de forma controlada. Passara por uma crise de criação durante algum tempo e quase tudo que saia no papel tinha uma passagem rápida para a lixeira. Não aceitava a arte que nascia das entranhas do medo e muito menos da paixão. Tinha um pavor de escritos ditos psicografados ou inspirados, já que sua rotina jornalística limitava-se a cópia do real. No passado, antes do oficio de mediador de fatos escrevera muita ficção cientifica, mas ainda assim cada palavra era planejada com a ambição de descrever um futuro realístico como fizera Júlio Verne e Huxley. As criações do presente pareciam surgir de sopros infundados da sua mente, como se tudo surgisse do nada e por isso não conseguia dar um fim ou uma continuação plausível. A máquina apenas produzia um lixo do subconsciente totalmente freudiano onde pênis enormes dominavam uma grande civilização de váginas reprimidas, pintadas e siliconadas. Os membros masculinos andavam, vestiam-se, compravam imóveis, faziam leis, ejaculavam publicamente, enquanto as vaginas eram aprisionadas em jaulas expostas em praça pública: não tinham bocas, ouvidos, olhos e muito menos cérebros para poderem perceber a insignificância de suas vidas.

A mente depravada era desconhecida pelo escritor de ficção cientifica que ambicionava produzir uma raça de peixes racionais com asas, cérebros e quocientes de inteligência elevadíssimos. Porém as imagens de sexos expostos nas avenidas atraiam os dedos e as centenas de papéis preenchidos em sua ferramenta de criação.

Sete horas da manhã e uma depravada história misto de Bukowski com fantasia de Garcia Marquês foi produzida durante a noite de insônia e manifestações desconhecidas. Tomou seu café matinal e saiu para o trabalho onde deveria entregar uma matéria cuja pauta abordaria a presença das mulheres em cargos de chefia no Brasil. Entrou na sala da editora chefe e foi questionado sobre a finalização da matéria. Como resposta e influenciado pela grande obra de sua vida surgida há poucas horas atrás. Ele baixou as calças, aproximou-se dela e exibiu toda sua plenitude artística em forma de um membro em ereção.


Imagem e texto: Lisa Alves