quinta-feira, 22 de maio de 2014

Minha Mãe Costurava para Travestis

6 comentários:

  1. confesso que usar a palavra carinho hoje em dia anda difícil, então só a usarei no final depois de algum preâmbulo e muito pêndulo... stanley kubrick costumava dizer "“The most terrifying fact about the universe is not that it is hostile, but that it is indifferent. If we can come to terms with this indifference, then our existence as a species can have genuine meaning. However vast the darkness, we must supply our own light.”... sim nos temos que gerar a nossa própria luz; e de certa forma nada mais lirico que os irmãos lumiére desenvolver a a ideia do cinema, que é luz e som, não é aleatório que Kubrick utilizava a metafora do universo como semelhante ao do espaço da experiencia do cinema, até mesmo as similaridades físicas... geralmente um lugar escuro e frio onde somos levados a escolher o que ver sobre tantas coisas... acho essa questão fundamental: de nós termos que produzir a luz que desejamos...

    No Beijo da Mulher Aranha de Manuel Puig, o preso político Arregui e Molina, um homossexual afeminado preso por corrupção de crianças. O livro é um pouco a metáfora dos nazi facismos latino-americanos e suas tendencias "sanitárias" de limpar o mal da sociedade - assim Arregui e Molina dividem a mesma cela e o drama de sua terra e Molina tenta confortar Arregui da dura realidade da prisão e da separação da mulher que ama, na figura da Mulher Aranha. À medida que a história se desenvolve, fica claro que Arregui está sendo envenenado pelos carcereiros para que revele o que sabe. Molina, ao que tudo indica, revela aos poucos o seu afeto por Arregui. E isto tem a ver com o que Puig pensa a sexualidade: "Las primeras manifestaciones de la libido infantil son de carácter bisexual”, porque a bissexualidade é ambígua em sua infância, é só depois que ela se submete [ou não]
    aos códigos culturais e fálicos da nossa sociedade. A ideia de um travesti para mim é como diadorim ao contrário: vive velando o que lhe impuseram, enquanto diadorim revela o que lhe impuseram...

    às vezes me impressiono com as coincidências que reverberam pelo espaço ou talvez tudo esteja sempre gravitando Rimabaud e Verlaine tiverem que se travestir ao seu tempo para poderem amar-se; talvez o primeiro casal efetivo a assumir um relação e poesia homoerótica [excetuando a antiguidade classica que tinha uma estrutura social
    e espiritual diferente, politeista e panteisa]... então Verlaine escreve Clair de Lune que influenciou Debussy, esse amor puro que mais tarde se transformaria na tragedia pessoal de Rimbaud e Verlaine e sua homossexualidade.

    nem todas as formas de carinhos são explícitas e/ou implícitas - as vezes nem são mas trazem em si o quanto e como as coisas foram corrompidas ao tempo e lembrar que todo sangue e lodo que hoje jorram já teve uma nascente cristalina... não sei se adianta tentarmos uma busca sagrada [para talvez mais sangue derramar?] pela purificação, porque fazemos parte da sístole e diástole que o mundo é... minha sujeira também me define e me conforta mas é uma forma de carinho saber e aceitar essa grande distância que já não temos... é com grande tristeza que sinto que o mundo estabeleceu suas quotas de gente à esquerda de sua norma e nisto, estipular com tão pouca imaginação todo o resto... "sim viemos todos do céu" e nele só há infinitos... travestis, putas, madames, burgueses, artistas, pastores, corruptores
    e toda e qualquer categoria - quando entre-tecida se desfazem e tudo fica sobreposto, uma igualdade impossível de se definir... e com grande alegria que acho isso uma forma de carinho imenso.

    um abraço

    obs:recomendo o documentário de Rodney Ascher "Room 237" sobre o Iluminado de Kubrick, se não viu é facil de achar na net [no meu blogue tenho ele reduzido em poucos megas para ver em qualquer lugar] e tem todas essas suas sacações de edição que tanto gosta...

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    1. Confesso que abrir meu blog e ler um comentário tão atento e valioso como esse me faz muito feliz e esse gesto é carinhoso ( e nesse caso sem medo de usar a palavra)

      Juro que não tinha conhecimento sobre a relação de influência de Debussy com Verlaine e isso foi uma feliz coincidência. Essa música surgiu de uma coletânea de música do pai da minha companheira que já faleceu (o pai faleceu).

      Toda as personagens são reais e esse foi um texto em homenagem a minha mãe, inicialmente pensei em colocar a idéia de que somos todos feitos da mesma matéria das estrelas (para não dar abertura ao sagrado), mas logo deixei assim romântico e ingênuo como uma criança. rs

      Ah amo o Iluminado e esse filme está na minha lista de melhores adaptações para o cinema e com certeza irei assistir o documentário que vc recomenda.

      No mais gratidão por mais essa visita

      Abraços Lisa
      Obs: creio que te achei no face, mas não se sinta pressionado para me adicionar. ;) beijos

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  2. respirando poesia e sensibilidade mais inteligência.o comentário tao amplo dispensa o meu e muito aprendi.abraço.

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    1. Liv que bom ter seus olhos por aqui. beijos

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  3. Simplesmente foda, de arrepiar! Um texto sensível, uma montagem audiovisual tão delicada. Sou tua fã, amiga.
    Beijão.

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    1. Obrigada Larinha! :) Tb sou sua fã, vc sabe! :)

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