sábado, 1 de outubro de 2011

Linhas de Expressão


Cena: Morangos Silvestres, de Ingmar Bergman (1957)



“Não é possível haver tempo caso
não exista a alma para enumerá-lo”
Aristóteles



Olhos Profundos, não chore! A vida é uma comédia mascarada de drama. A velhice veio e a atirou em uma piscina de remédios. O relógio está parado – é o medo do tempo, medo da gravidade, medo do fim. Estamos sem voz, estamos sem reação – não conseguimos aplaudir esse último discurso. Na infância exigia a eternidade de seus dias, mas agora a maturidade é uma assombração, uma esquizofrenia adquirida da incapacidade de compreender o ciclo natural da vida. Quero uma lembrança viva: conselhos perturbando-me a noite e sua voz alegrando meus dias. Mas você quer ir embora por fragmentos: um dia é sua sanidade, no outro mais um membro. Nenhum esforço pela vida, nenhuma rejeição do fim.
  
O oráculo engana-me com mapas que só levam-me ao isolamento e desse lado ouço sua voz fraca e velha contando-me sobre duelos com problemas fictícios. Quando eu era pequena sonhava com suas boas intenções, sonhava com seu apoio, sonhava com nossa família grande e unida pela obrigação de laços e hoje você é o meu pior pesadelo. O inimigo que a persegue também atingiu meus heróis – arrancou-lhes a voz, decepou-lhes as asas e fez dormir metade de um continente.

Às vezes pergunto-me se estou no chão ou no teto, às vezes me pego cantando sobre coisas que deveriam ser esquecidas e caladas. Tudo segue uma meta física e a falta de sentido termina quando vejo combinações numéricas tendo a capacidade de afastar quem amamos. O amor também é uma combinação numérica (uma reação química acidentada ou calculada).

Somos passageiros de uma cápsula perdida no tempo, estamos oscilando, estamos nos perdendo nessa ilusão de viagem linear. O tempo é incapaz de nos sustentar em um só ponto. Nossa embarcação não difere o ponto zero do infinito aberto. Pisamos em linhas imaginárias, andamos por elas e alguns de nós até santificaram esses traços. Mas não esqueça que as linhas que cortam o seu rosto também cortam o meu, cortam o do seu filho e cortam o Equador.

Ontem senti um vento frio e seco passear por minha janela, a primavera chegou com sabor de outono, as folhas velhas caíram no pátio e mais um dos nossos se foi. Para onde? As estações não respondem. Observo meus sentimentos e vejo que eles amadureceram, o medo do fim se foi e como você não posso lutar contra a expansão do universo.

No final a natureza se sobressaiu e a fé tornou-se um estimulo exclusivo dela – acreditar é uma forma de conexão com um lado camuflado pelas limitações dos sentidos. Há muita complexidade nos sistemas da natureza: as formigas possuem mais de um milhão de funções e continuamos usando as mãos apenas como ferramentas.

Olhos Profundos, não chore! A flor de ontem tornou-se o nosso hortelã, os ossos de nossos heróis infiltraram-se no magma e vez ou outra são jorrados para a superfície demonstrando o fervor de seus sentimentos. Ainda que a terra nos devore, seremos vermes, alimento e água. Mas nunca, nunca mesmo, deixaremos de ser alma  pois é a alma que move o motor do tempo.