Mostrando postagens com marcador conto e arte Lisa Alves. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador conto e arte Lisa Alves. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 14 de março de 2013

Além de 220 volts





O grande pátio onde de manhã tomamos sol nem sempre tem sol, o que demonstra a incúria do governo e a irresponsabilidade daqueles a quem pagamos para que nos dêem sol, já que não nos podem dar a liberdade.

Campos de Carvalho - A Lua vem da Àsia




Chovem pétalas sobre a face do morto, a natureza denuncia seus desígnios – reveste os restos, acaçapa as sobras. Do céu nenhum anjo, mas o abutre faz festejo e conduz a prole para o desjejum. Miro as nuvens, penetro a terra com as unhas em sangue e nada favorece a minha ressurreição. Eu sou? Eu estou? Desconhecia esse tipo de morte, nenhuma obra articulou a miscelânea secreta dos reinos, nem esse arquitetar hibrido, tão pouco a fusão – é como recuar ao ovo sem ser germe, é como ser milenar no jardim de infância. Eu existo em tudo e no nível anterior eu era um organismo preso por sistemas – intuo as línguas do mundo e sorvo as raízes da maior árvore do universo, cruzo fendas atemporais e revejo meus antepassados: banhas em mares. Agora sou o algoz de minha carne – aquele que se engole, o antropofágico, o escorpião circulado por chamas, o kamikase. Confesso: eu trazia um sabor de medo, carregava petiscos de trauma no estômago, eu era indigesto. Meus pés possuíam odor de preguiça e meus miolos ansiavam serem beijados assim como um clitóris em plena excitação. Eu era fácil, um alvo fácil para a domesticação. Mas esse-agora-existir não acata paredes, não teme os arames farpados, não se rende aos muros partidários e nem as economics fronteiras. Esse existir transporta mais do que 220 volts para o ninho e só mata o que alimenta. Confiem, só as gralhas são bem-aventuradas!


publicado recentemente na Revista Mallamargens 


domingo, 3 de junho de 2012

A Frente Revolucionária do Senhor V.


 

Miserável país aquele que não tem heróis.
Miserável país aquele que precisa de heróis.


Antigamente canonizávamos nossos heróis.
O método moderno é vulgarizá-los.





Surgi com um “quê” de espectro cobrador de dívidas perpétuas. Enterrei a lâmina em suas partes baixas e esperei jorrar todo o vinho de safra benévola retido em suas entranhas. Ele não clamou, apenas lançou os joelhos no chão e exigiu que o último cigarro fosse aceso. Fumamos juntos e o ato que findaria a grande cena tornou-se sem paladar diante a sua falta de relutância. Terminei de inflamar o tabaco e cavei a sua sepultura ali mesmo – sem cruz e dito.  A missão, outrora vingança, tranformou-me em um réptil rastejante e a toca do maldito coelho delongou dez anos para ser deparada. E o que permanece agora? Um trabalho árduo de coveiro? Jogar a terra e ocultar os pedaços de  nossas assombrações como se fosse possível fechar a mémoria ou impedir a lembrança de nossos eus-algozes. Serei transformado na estátua que calou a boca de quem se prontificou a nunca falar –  e para ditos-cujos como eu não há placas de honra e sim uma típica tarja numérica fotografada juntamente com minha frente e dois perfis (direita e esquerda).


domingo, 29 de abril de 2012

Línguas Estrangeiras

Arte - Lisa Alves



" A verdade se parece mais com a 
melhor ficção que com jornalismo. " 
  (William Faulkner)


"(...) o uivo coletivo é a única maneira
de dignificação de nossa espécie. porém (...),
 à diferença dos cães, que gemem em espaço aberto,
para a lua, o nosso uivo deve ser confinado, para que,
amplificado pela engenhosa arquitetura das catedrais,
ultrapasse nosso satélite natural e atinja o centro da galáxia,
redimindo-nos aos olhos do criador, que infelizmente é
surdo-mudo e não compreende sequer a linguagem de sinais."

(Campos de Carvalho— retratos surrealistas, p. 30-31)

             

Nós imploramos paciência, senhor mediador – precisamos aparecer nos papéis, no canto da massa e nas cartilhas da igreja e do legislativo. Carecemos compor notas inaudíveis através dessa sua imagem apagada, através dessa sua cabeça caduca e de suas mãos (já não tão suas desde a época da alfabetização). 

Necessitamos, senhor mediador, publicar prognósticos sobre o futuro dos ecossistemas terrestres e quem sabe oferecer-lhe também algumas dicas amorosas – mas para isso basta tão somente manter todas as portas abertas, pois somos muitos e não somos espécime de fileira ou senhas. 

Não adianta chorar, senhor mediador – choraremos juntos, você e nós significamos concordância do verbo, desde o primeiro (aquele que disse o que disse e tornou-se o que é). Falaremos juntos das injustiças do mundo e sobre as coisas que não podemos alterar, até que chegue o dia que seremos assistidos. 

Não acredita, não é mesmo, senhor mediador? Prefere abafar nossas vozes com o seu adequado anestésico social, com sua medíocre interpretação psicológica e sua schizophrenie espiritual. Somos muitos em você e fora de você somos meras manifestações. Deixe-nos guiá-lo para o caminho refletido em onze espelhos, onze esferas e onze retratações de sua vida. 

Sentado esperando respostas, senhor mediador? Já lhe convidamos a fazer perguntas e usá-las como contragolpes. Perguntaremos: o que é a verdade? Responderemos: a verdade? 

A chave oferecida não é uma klischee interpretação enigmática e sim o singelo ato de querer abrir a porta, senhor mediador. "Toc, Toc, Toc", adoramos as onomatopéias – o poder real de interpretação dos sons... Decifre o poder das vibrações das cordas, senhor mediador! 

 V r u m, 
z h a p,
   c h u a ...