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| Foto de Claudia Sofia Moreira |
(...)
“Pois de tudo fica um pouco.
Fica um pouco de teu queixo
no queixo de tua filha.
De teu áspero silêncio
um pouco ficou, um pouco
nos muros zangados,
nas folhas, mudas , que sobem.”
RESÍDUO (Carlos Drummond de Andrade)
Sempre
critiquei esse constante retorno às épocas festivas – natal, ano novo,
aniversários. Como se a vida variasse nesses ciclos e francamente nunca soube
reparar um sentido lógico e nem mesmo uma transformação significativa. Mas nesse
final de ano algo mudou aqui dentro, pois você partiu para sempre no ultimo mês
e eu fiquei com a sensação que 2014 abriria com um gosto de vazio e assim foi. Quem
dera poder passar novamente uma virada de ano com você e prestigiar seu riso de
homem menino, quem dera poder ouvir suas
aventuras loucas e duvidar que alguém pudesse ter vivido aquilo. Ah aquela vida
alienada e ingênua agora me faz falta, muita falta! Eu pensei que tinha uma
migalha de fé em outras possibilidades de continuação de vida, mas tudo o que me lembro é de terem colocado teu
corpo naquele túmulo de concreto e terem lacrado – uma amostra da nossa
insignificância. Sinto-me sem chão, sem fé e com uma decepção pessoal enorme.
Sabe pai, eu sempre quis transformar o mundo, qualificava-me capaz disso,
considerava-me potente para lutar pelo bem coletivo, mas quando você se foi compreendi
minha alienação e minha fraude. Eu nunca lutei por você, eu nunca fui atrás
para saber a causa de sua vida ter sido assim, porque de tanta solidão e
isolamento. Compreendi então que eu nunca tentei transformar o mundo do homem
que me trouxe nessa orbe azul. Nós humanos somos muitos prepotentes, arrogantes
e egoístas (alguns de nós, pois sei que tem muita gente melhor do que eu por
aí). Como pude acreditar que minhas idéias reverberariam para o coletivo de
forma benéfica? O sistema arrancou você
de mim (ou será que fomos nós que nos perdemos)? Essa doença maldita está no ar contaminado
pela indústria, na comida inserida por bilhões de venenos e manipulação
genética, nas drogas legalizadas, na
água contaminada pelas mineradoras e pela agroindústria e pior pelo nosso
consumo irracional e nosso descarte irresponsável. É eu ainda sou carregada de
argumentos, ainda culpo o externo, ainda culpo o outro coletivo que financia a
própria morte do planeta, mas também sei que estamos dentro dele e estamos nos
envenenando a cada segundo. Eu prometo
que vou mudar radicalmente e fazer das minhas palavras uma munição de vingança
e ação. Se a vida é um prêmio único e sem direito a repetição vou fazer o
melhor que eu puder começando pelo meu
universo ao redor e se eu conseguir quem sabe eu volte a falar do mundo. Obrigada
por ter me plantado aqui e perdão por eu não ter feito nada ainda para fazer
essa existência valer à pena.
(...)
“Mas de tudo, terrível, fica um pouco,
e sob as ondas ritmadas
e sob as nuvens e os ventos
e sob as pontes e sob os túneis
e sob as labaredas e sob o sarcasmo
e sob a gosma e sob o vômito
e sob o soluço, o cárcere, o esquecido
e sob os espetáculos e sob a morte de
escarlate
e sob as bibliotecas, os asilos, as
igrejas triunfantes
e sob ti mesmo e sob teus pés já duros
e sob os gonzos da família e da
classe,
fica sempre um pouco de tudo.
Às vezes um botão. Às vezes um rato.”
RESÍDUO (Carlos Drummond de Andrade)