domingo, 8 de janeiro de 2012

A Prisioneira do Bosque – Demasiadamente Natural

Tela: Victor Cauduro


Ég get tekið
Ég tek við því
Náttúra!

Eu sou capaz de tomar
Eu a recebo
Natureza!


Náttúra - Björk


                Depois de toda melancolia percebeu que seus sentimentos eram transformados em um misto de medo e decepção. Os universos eram constituídos de tudo aquilo que ela tentara se afastar a vida toda: o medo, o desconhecido, a dor, a ilusão... 



O inverno e suas pétalas congeladas.
A frieza de toda gente estampada em suas bocas de sorriso botox.
Mais tarde chega a compreensão estacional – tudo é uma questão de estado de espírito.
Meu espírito anárquico não compreende a frieza em pleno verão.
Nasci na tropicália mineirês, no barroco europeu, nos santos que nunca acreditei.
Aprendi a ler para rezar novena  e fui parar em  “Ave, Bakunin!” e “Salve Lispector!”.
Como explicar um ser que não é para o que veio? Como explicar um mar seco? Como explicar um espinho que nunca defendeu sua rosa?




Versos soltos no ar, recitados pela voz do vento e a menina fecha os olhos e tenta se fundir com as palavras, provocando assim canções de uma natureza desconhecida.


– Já ouviu falar sobre a natureza humana, minha menina?

– Sim.

– Essas palavras contadas pelo vento são de alguém que fugiu a regra de sua natureza.

– E esse alguém é humano?

– Tão humano quanto o seu medo, a sua dor e a sua ilusão. 

– Às vezes acredito que minha dor e meu medo são especialmente únicos, adaptados as minhas experiências. 

– Posso garantir que tudo o que você já viu e sentiu já está no passado de milhares de seres.

– Então me diz em que tempo estou de verdade?

– Apenas nos SEU tempo, minha velha criança!

– O tempo é algo individual?

Digamos que cada um tem o direito de cultivar seu próprio tempo, alguns preferem que o tempo os domine, são escravos das horas. Já outros são capazes de tornar um segundo  uma estrada longa e cheia de novas experiências. Tem gente, minha menina, que faz do seu dia apenas um piscar de olhos.

– Já tive dias assim, já tive pessoas assim. Em um piscar de olhos e eram outros e outras.


As linhas traçadas na face
Os ombros caídos e cansados
O solo infértil e a mulher desertificada
Ontem, não eram assim.

Sinto saudade do que fomos
Sinto saudade da caverna e da lamparina
Da casa de barro e do fogão a lenha.
Do abraço que agora mora dentro da terra.

As mãos tão unidas, agora distantes
O tempo é de espera – cautela.
Muda-se de endereço, muda-se a ideologia
O certo e o errado já não servem de guias.



– Para onde vamos?

– E você sabe onde estamos?

– Em vários mundos, creio!

– Negativo! Ainda estamos no seu.


5 comentários:

  1. Palavras que são um caminhar em frágeis e delicados equilíbrios...
    Gostei muito!

    Bj

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  2. que bom que segue A Prisioneira do tempo e colo aqui um dizer de Fernando Pessoa como Bernardo Soares no Livro dos desassossegos:

    "Não sei o que é o tempo. Não sei qual a verdadeira medida que ele tem, se tem alguma. A do relógio sei que é falsa: divide o tempo espacialmente, por fora. A das emoções sei também que é falsa: divide, não o tempo, mas a sensação dele. A dos sonhos é errada; neles roçamos o tempo, uma vez prolongadamente, outra vez depressa, e o que vivemos é apressado ou lento conforme qualquer coisa do decorrer cuja natureza ignoro."

    E de quem é o tempo?

    Beijos Lisa querida e logo estará em Vidráguas, boa semana.

    Carmen.

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  3. Demais! E é sempre tão difícil sair do próprio mundo...

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  4. Um beijo Lisa querida, passo para te deixar um desejo de ótima semana.

    Carmen.

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  5. A liberdade é só mais uma prisão, quem sabe.

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