quarta-feira, 23 de novembro de 2011

A Prisioneira do Bosque – Desintegração dos Quarks


Foto: Juliana Botão
Arte: Lisa Alves




“Respire, inspire o ar
Não tenha medo de se preocupar
Vá, mas não me deixe
Olhe em volta, escolha seu próprio chão
Por muito tempo você viverá e voará alto
(...)
Corra, corra, coelho, corra
Cave esse buraco, esqueça o sol
E quando finalmente o trabalho estiver terminado
Não vá se sentar, é hora de começar a cavar outro”

Breathe do álbum - Darkside Of The Moon – Pink Floyd







– E então, como é envelhecer? Consegue sentir a indelicadeza do tempo? 


– Eu não posso falar com você, estou em uma fase racional!


– A sua ingenuidade continua permanente.



As duas se entreolharam, uma estava diferente a outra permanecia da mesma forma. Trocaram sorrisos, embora aquela que um dia fora uma menina, tendia a desconfiar da realidade daquele momento. Passaram-se anos e desde o último contato com Perséfone nunca mais havia compartilhado o mesmo espaço com a deusa.



– Sua vida mudou muito?


– O suficiente para que eu exija que você saia pelo buraco que entrou.


– Você sabe que as coisas não funcionam assim. Só apareço quando a sua mente vibra em desconexão com isso que chamam de realidade.


– Sinceramente, está tudo tranqüilo por aqui! Minha existência não é mais uma busca interminável por vida.


– Estou preocupada! Naquele tempo, você assistiu duas versões de sua vida. Mas a transição entre os dois tempos foi deixada livre para você viver. Justamente a parte mais complicada, conflitante e decisiva.


– Olha só, está história de “Alice no País das Maravilhas” e depois “através do Espelho” já está bem batida, não acha? Eu não vou entrar nesse jogo novamente, não confio em você! Dá última vez, fiquei a ver navios interrompidos por uma tempestade de areia.


– Da última vez, você era um espírito apaixonado pelo novo. Mas agora, vai ser diferente. Prometo! Pense, bem! Você despertou Eros dentro de si e despertá-lo impede qualquer interrupção de sentimentos vazios. 


– Cale a boca! Você não existe!


– O que é real, querida? Pixels, quarks, vetores, lembranças? A sua carne que um dia virará pó? Esse satélite “natural ” que chamam de Lua e que provavelmente filma você, seu vizinho e sua tia?



Uma canção preencheu o quarto e desintegrou aquela que um dia fora uma menina:







O olho que vê quase nunca enxerga

Dentro da perna, poeira de eras

Dentro do coração, dentes de sabre



Dancem todos a dança das feras

Explodam e durmam na alquimia das armas

Leve a menina para o Bosque dos Mistérios



E desperte sua mente para uma nova jornada.







(continua em breve)






A Prisioneira do Bosque faz parte de uma saga psicódelica que escrevi em 2007. Publicava um capítulo por semana no Metamorfose de Monstros. Quem quiser conhecer a primeira fase dessa saga é só começar por esse link:  A Prisioneira do Bosque.




6 comentários:

  1. realmente o que cremos ser real se desintegra a cada instante diante da enormidade de signos que são desvelados.

    Ah, adoro Dark side! Ontem mesmo passei o dia assistindo a um documentário sobre sua gênese.

    Abraços!

    ResponderExcluir
  2. Os mestres sempre nos lembram que um das piores (ou primeiras) barreiras no caminho do guerreiro (ou da Sabedoria) é a Auto-importância.

    É nessa tênue linha que separa a morte do ego e o suicídio.

    Mergulhar num espelho ou entrar no mundo alternativo através da toca do coelho é um bom começo.

    Mas no fim temos que voltar como mendigos, assim como Odisseu depois de toda sua jornada.

    Seremos reconhecidos depois de adentrarmos o mundo real, dos arquétipos, dos deuses?

    Beijo, menina sabida.
    Eulálio.

    ResponderExcluir
  3. Sr Eulálio, acho que vou usar o seu argumento para a Perséfone.

    Acredito que depois de adentrarmos, a metamorfose é irreversivel.

    ResponderExcluir
  4. conhecer e não mais
    re-conhecer, disse
    com as mãos firmes, indesculpáveis
    sepultando-se filho
    outrora, destino.

    ResponderExcluir
  5. comentar o que? muito para minha cabeça, sob efeito de nada. só queria saber escrever assim.

    ResponderExcluir
  6. Vim aqui, li, amei, e sequestrei lá para o Vidráguas com os devidos créditos...

    Beijos Lisa Querida, estar contigo em leituras é sempre muito bom e produtivo e parabéns pala fotografia à Juliana.

    Carmen.

    ResponderExcluir